Ao Companheiro Mal-Agouro

E se ouvisses as coisas da tua morte em própria vida?

E se um decaído do Céu te abraçasse afim de consolar teus tormentos presentes e futuros?

E se tua alegria abandonasse os teus passos só para ver-te em mágoa?

E se teus dias te fossem doridos mais que a brasa fervente nos olhos?

E se dissessem que o amor de seus quereres te fosse embora sem dizer adeus?

O peso dos pesos é o passado que teima em ficar;

É a roda infindável dos dias;

Um Prometeu sob a ira dos deuses.

– A morte como consolo, acaso quererias?

RAFAEL DE SOUZA

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Published in: on junho 14, 2011 at 1:42 am  Comments (1)  

Sofrer

 

Eu Sofro;
Tu Sofres;
Ele Sofre;
Nós Sofremos;
Vós Sofreis;
Eles Sofrem.

Devidamente assimilado o verbo, basta-nos SOFRER.

RAFAEL DE SOUZA

Published in: on janeiro 5, 2011 at 4:31 pm  Deixe um comentário  

Sobre as vadiagens de um homem feito…

A brejeira e o homem feito

A brejeira, tão moleca,

Incomoda a paz alheia.

Não que seja tão traquina,

Nem que seja faladeira.

 

O que muito incomoda

Na moleca tão brejeira

Está muito escondido

– Um segredo tão contido –

Que atiça o homem feito

Como cheiro ao pé do ouvido,

Ou fagulha no palheiro.

 

Mesmo sendo muito linda

– E por muito linda ser –

O segredo do feitiço

Não se encontra incutido

Na beleza do seu ser:

 

Não está no róseo delta

– O sorriso vertical –

Nem nos lábios tão carnudos,

Nem na mesticice forte

Tão flagrante em teu carnal.

 

O segredo da brejeira

É o jeito de enganar:

É o olhar meio de banda

– Digo, até dissimulado!

 

É o sorriso aciganado

Que em noites de lua cheia

Enche os tinos mais sagrados

Dos contos que a populaça

Sempre inventa das sereias.

 

RAFAEL DE SOUZA

Published in: on julho 6, 2010 at 9:34 pm  Comments (1)  

Vida, verdade e mentira…

LUDIBRIAÇÃO

 

Mentira? Sim, amo a mentira.

Mente, pois brota a verdade

Tal qual mel apanhado por Hebe.

 

Mente Anjo de candura,

Inda que fales dos Salmos e Evangelhos,

Mente o Alcorão ao pé do meu ouvido,

Mente tudo de mais sagrado;

Mente, ama teu panegírico.

 

Mente o céu, a terra e o amor,

Mente os ventos e a atração,

Mente os sonhos, minha ilusão.

 

Mente o tanto que te apetecer,

Mente a vida e a imaginação,

Mente as frases que me dedicar,

Mente as chamas da tua paixão!

 

Mentira? Sim, amo a mentira.

Inda que me custe a verdade,

Inda que me custe as flores, as cores, os ais.

 

Amiga, tua mentira imácula assaz!

Ouve teu vassalo tão crente

E apenas mente, mente, mente…

Oh, jaculatória da paz!

 

RAFAEL DE SOUZA

Published in: on abril 15, 2010 at 3:38 am  Comments (2)  

Aos traidores…

Ao Excremento Metafísico

 

Só mesmo no seio do nada metafísico

Podemos apreciar uma imensa trama de traições.

A honradez, a confiança e a sinceridade

Pertencem aos que nada crêem, e aos que nada são

Além do alcance da visão.

 

– Quimera, tu mereces os vermes e a merda!

 

Seria eu brando demais se desejasse apenas o seu esquecimento,

Por isso desejo-te a vida,

A vida entre os tormentos e excrementos,

Entre as dores e a imagem de teu carrasco:

Sou eu, quebro-te dedo a dedo,

Perfuro-te os olhos, cauterizo-te o ânus,

Ferro-te os pés – feito as patas de uma besta!

 

Sou a folha que mata a raiz,

E em verde tom, continuo vivo, filósofo e feliz.

 

RAFAEL DE SOUZA

 

Published in: on abril 2, 2010 at 6:10 pm  Deixe um comentário  

As flores também amam e choram…

Menina Moça

Ao vento, entre cabelos e saltos

A menina brinca de ser mulher.

 

Esboça, a linda menina, traços ousados:

Um rosto por Deus talhado.

Torna-se aos poucos,

Doce fruto e fina flor.

 

Amadurece a menina moça!

Inda ontem folia e mimos de louça

Desabrocha, agora, a rosa mulher tão clara.

 

Crescei árvore da vida

E na polpa dos vossos frutos

As mais ternas carícias brotai!

 

Engendra, almeje a amadurescência,

A malícia, o olhar de cobiça.

Enfim, durma a menina, desperte a mulher.

 

RAFAEL DE SOUZA

Published in: on abril 1, 2010 at 4:10 am  Comments (2)  

A brisa me trouxe você…

O vento

O vento me leva, e me eleva a memória:

E invento a palavra, e invento o momento,

E invento o tempo pra te conceber,

E invento um cenário, e invento um agrado,

E me inventa um poema, e me invento em você.

 

O vento me esfria, e ventila em mim as palavras de agora:

E invento um modelo, e invento seus lábios,

E invento seus traços, e invento minhas mãos,

E invento o calor, e invento o suor,

E invento o prazer, e invento os dias para amar você.

 

RAFAEL DE SOUZA

Published in: on abril 1, 2010 at 3:58 am  Deixe um comentário  

Uma caixinha músical…

Vila do Sossego

 

A ciranda, de tardinha,

Mobiliza o céu inteiro,

Sob o som da passarada

Se escuta o cirandeio.

 

Dá o Sol, lugar à Lua

E com ela o fim do dia,

Faz às vezes da estrela

O veleiro de Maria.

 

Corre livre a criançada

Pela vila do sossego,

Sem pensar na brincalhada

Cila chora o tempo inteiro.

 

Nasce lume dos seus olhos,

Vagam rios por João.

Vaga-lumes pela noite,

Vaga-Cila em solidão.

 

RAFAEL DE SOUZA

Published in: on março 31, 2010 at 7:20 pm  Deixe um comentário  

Uma singela heresia…

Oração à Palavra

 

Ave, Palavra, de graça encantada!

Guimarães, Machados e Andrades São contigo.

Vagabundos, amantes das letras

Galantes.

 

Bendita és Tu entre as mulheres

E homens enluarados,

Impregnados de significados ausentes

De pragmatismo e razão.

 

Santa Palavra, mãe do Amor,

Rogai e auxiliai as mentes que penam

Pelas cenas malsãs:

Pelos Casmurros e Capitus,

Pelas Joanas e seus Jasões,

E, porque não, pela boca que ao inferno conduz.

Livrai-nos da morte que Tua ausência nos traz,

Mas fazei-nos, de fato, sofrer!

Diga-nos sempre, Divina Palavra:

Amem, amem.

Amém!

 

RAFAEL DE SOUZA

Published in: on março 31, 2010 at 7:05 pm  Comments (1)  

A morte me cerca de ouro…

À posteridade

 

Deixo como legado às horas que virão

O retrato de um homem turrão,

Egoísta e demasiado covarde.

 

Não me lapidem uma alcunha de santo,

Que meu nome já me embaraça um bocado.

 

Nunca fui de bradar por amores,

Não me pintem num quadro em cores,

Que não falem que fui esforçado.

 

Minha fama para a posteridade

Deverá ser um fardo pesado:

Um lobo em pele de Cristo,

Um gatuno que assalta o mais fraco.

 

Vale mais ser um homem sincero:

– Digo a todos que fui mascarado,

Quando tive, falei que não tinha;

Nunca dei um centavo furado.

 

Não pensem que aqui me confesso,

Ou me arrependo dos anos passados.

Que esse texto nomeie meus dias,

Alcunhe-me e me seja legado.

 

Sempre fui um sujeito soturno:

Fui brilhante, encenei minha vida,

Fiz do mundo um teatro.

RAFAEL DE SOUZA

Published in: on março 30, 2010 at 3:51 am  Deixe um comentário