Uma singela heresia…

Oração à Palavra

 

Ave, Palavra, de graça encantada!

Guimarães, Machados e Andrades São contigo.

Vagabundos, amantes das letras

Galantes.

 

Bendita és Tu entre as mulheres

E homens enluarados,

Impregnados de significados ausentes

De pragmatismo e razão.

 

Santa Palavra, mãe do Amor,

Rogai e auxiliai as mentes que penam

Pelas cenas malsãs:

Pelos Casmurros e Capitus,

Pelas Joanas e seus Jasões,

E, porque não, pela boca que ao inferno conduz.

Livrai-nos da morte que Tua ausência nos traz,

Mas fazei-nos, de fato, sofrer!

Diga-nos sempre, Divina Palavra:

Amem, amem.

Amém!

 

RAFAEL DE SOUZA

Published in: on março 31, 2010 at 7:05 pm  Comments (1)  

A morte me cerca de ouro…

À posteridade

 

Deixo como legado às horas que virão

O retrato de um homem turrão,

Egoísta e demasiado covarde.

 

Não me lapidem uma alcunha de santo,

Que meu nome já me embaraça um bocado.

 

Nunca fui de bradar por amores,

Não me pintem num quadro em cores,

Que não falem que fui esforçado.

 

Minha fama para a posteridade

Deverá ser um fardo pesado:

Um lobo em pele de Cristo,

Um gatuno que assalta o mais fraco.

 

Vale mais ser um homem sincero:

– Digo a todos que fui mascarado,

Quando tive, falei que não tinha;

Nunca dei um centavo furado.

 

Não pensem que aqui me confesso,

Ou me arrependo dos anos passados.

Que esse texto nomeie meus dias,

Alcunhe-me e me seja legado.

 

Sempre fui um sujeito soturno:

Fui brilhante, encenei minha vida,

Fiz do mundo um teatro.

RAFAEL DE SOUZA

Published in: on março 30, 2010 at 3:51 am  Deixe um comentário  

Sobre a meninice e as suas desandanças…

Meninice (2)

Inda pinto a aquarela da infância:

Jogo de bola, pique – esconde e guaraná.

Sinto o cheiro da ameixeira da vizinha,

Sinto falta da conversa a descambar.

 

Manhãzinha de domingo era sagrado;

Também sagrado era o almoço e o jantar,

Antes da carne vinha sempre a salada:

– Come tudo, depois pode ir brincar.

 

Montanha russa, carrossel e pula – pula,

Quando menino me cansava de esperar,

Não via à hora de crescer e ser adulto,

Hoje, que sou, não tenho tempo de sonhar.

 

RAFAEL DE SOUZA

Published in: on março 29, 2010 at 2:34 am  Deixe um comentário  

Sobre o vai e vem do morro…

Um dia no morro

É dia de festa e apito no morro,

José Sem Socorro não pode faltar;

Subiu a Ladeira tomando cachaça,

Maria Sem Graça pôs-se a chorar.

 

Ind’agora vi Juca Ligeiro;

Olhar traiçoeiro, inveja e paixão,

Ind’agora vi Juca Ligeiro

Com o sangue e a vida dum outro na mão.

 

Vez ou outra Aurora Faceira

Rumo à gafieira se faz caminhar;

Vez e sempre, Aurora Faceira

Só pega seu rumo ao primeiro raiar.

 

Tem bola, tem pipa e fubeca;

Na certa tem cinta de couro na mão.

Mamãe vem raivosa, papai com decoro,

Vovó diz que a sova ajeita a razão.

 

Com lua na vista a menina arrisca

O seu bem-me-quer;

Com fogo nos olhos, saliva na língua,

O menino registra a mulher dum qualquer.

 

Tem samba no morro, tem samba no pé;

Será que Maria encontra José?

Tem choro no morro:- Sem Graça, o que é?

– Foi Juca Ligeiro que matou meu José.

 

RAFAEL DE SOUZA

Published in: on março 29, 2010 at 1:24 am  Deixe um comentário  

Para brincar de brincar com as palavras…

 Sejam bem vindos ao compromisso descompromissado de jogar ao vento, e ao tempo, palavras belas escritas com intenções duvidosas…

Published in: on março 24, 2010 at 4:15 pm  Deixe um comentário